Thuy Thiên: Os Aromas que Viajam do Vietname até Bombarda

Entre aromas que despertam memórias e sabores que contam histórias, há um lugar em Bombarda onde o tempo abranda e a viagem começa antes mesmo de se provar o chá.

Entre o Vietname e Portugal, entre o aroma do chá e a vida do bairro, Thuy Thiên de Oliveira construiu em Bombarda um espaço de encontro. Um lugar onde culturas se cruzam, histórias se partilham e a hospitalidade se transforma numa forma de comunidade. Ao longo de quase duas décadas, a Mùi Concept ajudou a enriquecer a diversidade cultural do território, mostrando que, por vezes, uma simples chávena de chá pode aproximar mundos inteiros.

Na Rua de D. Manuel II, no coração criativo do Porto, o espaço MÙI Concept revela-se como um território de encontro entre culturas, gestos e tradições.

“Há sempre uma simbiose entre a cultura portuguesa e a vietnamita a partir do chá; com a divulgação do chá e das tisanas promovemos a sustentabilidade, a preservação das camélias e a nossa saúde”. 

P: Thuy Thiên, há quanto tempo chegou a Portugal? O que a trouxe a Bombarda?
R: Cheguei a Portugal em finais de 1987 para dar aulas de inglês e de francês no Liceu Francês, a atual Escola Francesa. 
Um amigo nosso (meu e do meu marido) tinha a primeira loja de chá em Lisboa. Fazíamos muitas coisas juntos, como visitas a plantações e viagens… a última que fizemos foi a uma plantação de chá no Vietname, por volta de 2004. Foi esse amigo, que infelizmente já morreu, que incentivou a abrir uma loja de chá pois eu conhecia muito bem os chás e a cultura vietnamita. 

P: Porquê a cidade do Porto? Foi apenas um acaso ou uma oportunidade?
R: Abri a loja há cerca de 20 anos, em 2005, mas nessa altura não vendia ao público. Não conhecia bem o mercado e penso que este era muito tímido… foi um início muito lento e só há dois anos para cá verifico que cada vez mais jovens procuram a “Mùi Concept”. 

P: Como sente que Bombarda recebeu este projeto Vietnamita? Quais foram os maiores desafios de que se recorda?
R: Fui eu que escolhi Bombarda e estive com a “Mùi” durante 10 anos no Centro Comercial de Bombarda. Em maio de 2022 encontrámos este espaço, na Rua D. Manuel II, que me agradou por ter muita luz natural e espaço, e permite-nos servir chá aos clientes no espaço exterior quando está bom tempo. 
Em termos de iniciativas que dinamizem a loja, já recebemos alunos de Erasmus da Faculdade de Medicina, a quem tivemos a oportunidade de dar uma palestra sobre chás e as suas características medicinais. Com o bom tempo, recebemos lá fora 20 jovens de todo o mundo. 

Origem e Inspiração

P: Qual é a importância do chá na cultura vietnamita? Qual é a diferença entre chá e tisana?
R: O chá vietnamita esteve sempre presente, pois faz parte integrante da cultura e da história do Vietname. Sempre que existe um pedaço de terra disponível para cultivo, é comum plantar-se uma planta de chá. A preparação do chá acontece tradicionalmente de manhã e, sempre que alguém visita a casa dos meus pais ou avós no Vietname é normal perguntar se deseja chá; é assim que gostamos de receber.
Quanto à diferença entre chá e tisana, esta última é uma bebida quente que não provém da planta do chá, a Camellia-sinensis. Infusões de ervas como a cavalinha ou a erva-príncipe são consideradas tisanas, uma vez que não derivam da Camellia-sinensis. Ao contrário do chá, as tisanas não contêm cafeína, enquanto que o chá verdadeiro é obtido a partir dessa planta e possui naturalmente cafeína.

“O conceito “Mùi”, que significa perfume, bom cheiro e “coentro” em vietnamita, reflete-se diretamente na experiência do cliente através do cheiro natural que se sente logo à entrada da loja”.

P: Thuy Thiên, o que a motivou a criar a Mùi Concept e como surgiu a ideia de combinar chá com elementos culturais asiáticos?
R: Na loja temos muitos artefactos. O chá tem os seus acessórios próprios. E há-os para todas as ocasiões: de cerimónia, o Kung-fu chá e o Vietname chá (de convívio). Como não havia muitos produtos orientais de bom gosto, em Portugal, e só se encontrava produtos kitch (estilo bibelô) decidi trazer à cidade produtos mais requintados. A “Mùi Concept” quer afastar-se do conceito de “loja dos 300”. Com os produtos que vendemos queremos mostrar o que de mais belo temos para oferecer.  

P: Como chegou até este projeto? Quais foram as suas principais motivações?
R: Primeiro, sempre gostei de chá; tenho pena de nem sempre conseguir dar a conhecer o chá pois em Portugal bebe-se muito mais café. Em qualquer café que se entre encontra-se chá da pior qualidade, e isso chocou-me imenso. 
Como em Portugal não há chá de qualidade e tudo está muito direcionado para o café, a minha missão passa por dar a conhecer os melhores chás do mundo e fomentar o gosto a quem me visita pelas infusões. 

P: O nome "Mùi" remete para o aroma em vietnamita. Como é que este conceito se reflete na experiência do cliente?
R: O conceito “Mùi”, que significa perfume, bom cheiro e “coentro” em vietnamita, reflete-se diretamente na experiência do cliente através do cheiro natural que se sente logo à entrada da loja. Esse aroma resulta da combinação dos chás oferecidos e cria uma identidade sensorial forte e autêntica. 

P: Quais são os principais produtos que oferece e como os seleciona?
R: Eu crio os meus chás e começo por ser a primeira a prová-los. Descubro sabores e misturas que não conheço e depois ouço a opinião dos clientes. Mesmo que não tenha o chá que os clientes procuram, tento sempre oferecer uma solução parecida, até para que fiquem a conhecer novos sabores. 

Uma ponte entre Portugal e o Vietname

P: Sabemos que existe uma fusão possível entre os sabores asiáticos e os portugueses. Como e quais? É habitual fazer estas criações?
R: Existe, de facto, uma fusão possível entre os sabores asiáticos e os portugueses, e essa criação acontece através da valorização de ingredientes naturais e de técnicas cuidadas de preparação. Um exemplo dessa fusão é o Golden Camellia, uma criação inovadora que utiliza flores de camélia dourada provenientes do Vietname. Estas flores destacam-se não só pela sua origem asiática, mas também pelos inúmeros benefícios para a saúde, uma vez que são ricas em vitaminas e não contêm cafeína.

P: Que contributo tem tido na aproximação entre a cultura vietnamita e a cultura portuguesa?
R: Sou presidente e cofundadora da primeira Associação de Amizade Portugal-Vietname. A nossa missão é dar a conhecer e divulgar a cultura de ambos os países, nos seus mais diversos aspetos.

Eu e o meu marido gostamos muito de viajar e já fomos convidados a participar num Festival de Gastronomia Internacional em Hue, antiga cidade imperial do Vietname, onde levámos presunto, queijo e vinho portugueses. Já organizei congressos em parceria com a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

É assim que dou a conhecer a cultura vietnamita em Portugal e que levo os sabores portugueses para o Vietname.

Quando organizo seminários relacionados com o chá, incluo um pequeno documentário sobre o Vietname, convido cineastas e poetas vietnamitas que, por sua vez, mostram que as nossas línguas têm muito em comum. Também faço parte da Associação Portuguesa das Camélias e, como há muitas camélias no Vietname, tentamos convidar produtores de camélias a falar sobre esse assunto e a fazer a aproximação às camélias do Norte de Portugal.

Há sempre uma simbiose entre a cultura portuguesa e a vietnamita a partir do chá. Com a divulgação do chá e das tisanas promovemos a sustentabilidade, a preservação das camélias e a nossa saúde.

P: Há projetos ou colaborações que gostaria de explorar neste espaço?
R: Sou recorrentemente convidada a fazer cartas de chá para hotéis e SPA’s, como no Six Senses no Douro. O Museu Oriente, a Casa Baltazar e a Confeitaria Nacional são alguns dos meus clientes localizados em Lisboa. Recentemente fui convidada a implementar o conceito de “Casa de Chá” na Fundação Mateus. Já participámos num evento organizado no Quarteirão das Artes em Bombarda: o “Afinidades na Cerâmica Contemporânea”. 

Bombarda, Comunidade e Futuro

P: A comunidade que encontrou em Bombarda tem um papel importante para si?
R: Quero permanecer em Bombarda e sinto que ainda existe espaço para reforçar o espírito de comunidade na zona. Procuro fazer parte ativa da dinâmica local, mas nem sempre é fácil, até porque a localização da Mùi Concept, fora dos eixos mais conhecidos de Bombarda, acaba por limitar a sua visibilidade.

“Eu acredito profundamente no espírito de comunidade e na ideia de que não podemos viver nem trabalhar sozinhos”.

P: O que poderia ser melhorado?
R: Gostaria de ver mais iniciativas e eventos que ajudassem a dinamizar esta parte da cidade e a aproximar as pessoas.

P: Há alguma mensagem que gostaria de deixar a quem visita a Mùi Concept?
R: A importância de pertencer a uma comunidade. Acredito profundamente que não podemos viver nem trabalhar sozinhos. Para mim, fazer parte de Bombarda sempre foi importante e, desde o início, procurei contribuir para a dinamização da zona e para a construção de um território mais vivo e mais próximo.

Contactos

Site oficial - https://www.mui-concept.pt/sobre
Morada - Rua D. Manuel II, 51 A, 4050-345 Porto, Portugal
Telefone - 933 689 764 / 938 713 639
Email - mui.gourmet@gmail.com

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