Entre fotografia, escrita e curadoria, o seu trabalho constrói-se através da observação, da investigação e da criação de relações entre imagens, textos e pessoas. A sua prática procura explorar aquilo que permanece invisível, questionando a forma como percebemos o mundo e construímos memória.
"O denominador comum entre fotografia, escrita e curadoria é o ato de selecionar, cortar e escolher — decidir o que será falado, visto e mostrado ao mundo."
P: Que denominador comum encontras entre a fotografia, a palavra escrita e a curadoria
R: A fotografia, a escrita e a curadoria são formas de expressão que utilizo para lidar com as inquietações do quotidiano.
Embora a fotografia possa assumir uma dimensão mais comercial e a escrita uma vertente mais académica, ambas continuam a ser práticas criativas onde encontro espaço para aprofundar pensamento e experimentação.
Desde criança, a leitura foi um refúgio e um território de ideias. A fotografia levou-me a organizar visualmente o mundo, seja através de um objeto, seja na composição de uma exposição.
A curadoria surgiu de forma semelhante, através de um convite da CRU Creative Hub, depois de vários anos de colaboração. Ao longo desse percurso percebi que, no fundo, tudo o que faço passa pelo mesmo gesto: editar, compor e estabelecer relações.
O denominador comum entre estas práticas é precisamente esse ato de selecionar, cortar e escolher — decidir aquilo que será falado, visto e mostrado ao mundo.
P: Quais são as tuas principais fontes de inspiração?
R: Inspiram-me autores que exploram a experimentalidade da linguagem e da escrita.
Inspiram-me obras que habitam o território do infraordinário, do marginal e do invisível, seja pelos materiais, pelas técnicas ou pelas relações que estabelecem.
Inspiram-me também a generosidade das pessoas que me rodeiam, a amizade, e a simplicidade que algumas obras apenas alcançam depois de um longo processo de maturação.
No fundo, encontro inspiração em tudo e em nada, sempre nesse lugar entre o absoluto tédio e a infinita curiosidade.
P: Que novos desafios criativos gostarias de abraçar nos próximos anos?
R: Quero continuar a desenvolver o projeto Cartografia para uma Biografia, iniciado em 2024, expandindo-o através de residências artísticas, investigação e colaborações.
Pretendo aprofundar igualmente o trabalho na escrita experimental e na edição de publicações, sob a forma de livros de autor, ensaios ou revistas.
Gostaria também de continuar a colaborar com artistas de diferentes disciplinas e aprofundar o design expositivo na área da curadoria.
Na investigação académica, desejo continuar a explorar a relação entre fotografia e tempo.
P: Que objeto ou ritual não pode faltar no teu dia a dia de trabalho?
R: Não tenho objetos ou rituais fixos, porque nenhum dia é igual ao anterior.
Ainda assim, existe um gesto que antecede quase sempre o trabalho: preparar o espaço. Antes de escrever ou de imaginar uma imagem, sinto necessidade de reorganizar o ambiente.
Depois seguem-se normalmente uma leitura dispersa, uma deambulação e uma chávena de café.
P: O que significa Bombarda para ti?
R: Bombarda representa a ideia viva de comunidade, no seu sentido mais amplo.
É um espaço de partilha, encontro e transformação permanente, alimentado pela diversidade dos seus membros e por uma ética de acolhimento, hospitalidade e vitalidade.
Para mim, Bombarda foi sempre um lugar onde projetos e ideias ganharam forma, onde diferentes modos de expressão, de vida e de criação se encontram e dialogam.
Portefólio
A prática artística de Rossana Mendes Fonseca cruza fotografia, escrita, curadoria e investigação, explorando a imagem enquanto território de pensamento, memória e experimentação.
Tradução dos textos originais (em inglês) de Virginia Woolf: Letter to a Young Poet, Street Haunting: A London Adventure, and Craftsmanship para português + Imagens realizadas a partir de levantamentos de emulsão de polaroids a preto e branco.
Agosto, 2024.
Texto em papel esquiço, levantamentos de emulsão de polaroids em papel de aguarela, linho pintado a óleo — objectos de uma cartografia biográfica, instalados no Estúdio Aro de 28 de junho a 31 de julho, 2024.
Desenvolvimento artístico do Doutoramento em Arte Contemporânea, no Colégio das Artes da Universidade de Coimbra.
[trans]sombre, série de 4 fotografias, realizadas a partir de uma coreografia com luz de Marta Cunha com máscaras criadas por Carmo Paulino e João Apolinário Mendes, impressas em papel fotográfico, 70x100cm, instaladas na CRU creative hub, de 21 de março a 25 de abril, 2015.
Cartographies of Deviations. Mapping Origins and Narratives, exposição colectiva com obras das artistas Glorija Lizde, Izzy Benigno, Lana Stojićević, Stela Mikulin and Tanja Minarik, resultado da Residência de Curadoria no Culture Hub Croatia [PROSTOR], entre 4 de agosto a 2 de setembro de 2024, exposição patente entre 28 de agosto a 20 de setembro, 2024.
Como colaborar
Rossana Mendes Fonseca desenvolve projetos artísticos, curatoriais e editoriais dedicados à fotografia, à escrita e à cultura visual. Realiza comissões fotográficas, direção artística, projetos editoriais, curadorias, residências, workshops, docência e consultoria nas áreas da imagem e da arte contemporânea.
Está disponível para colaborações artísticas, investigação, programação cultural e projetos interdisciplinares.
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