Sol e João: o México que encontrou casa em Bombarda

No Frida, não se vai apenas jantar. Entra-se numa casa onde a comida é memória, celebração e identidade. Um lugar onde a tradição mexicana é vivida com rigor, mas também com emoção — e onde Bombarda surge como o cenário natural para esta narrativa.

“Há um compromisso em fazer com que cada prato tenha uma beleza própria e seja, em si mesmo, uma criação artística.”

Do primeiro encontro à construção de uma vida em comum

P: A vossa primeira ligação aconteceu enquanto estudantes Erasmus na Polónia. Quando se conheceram imaginaram que algum dia viriam a cozinhar juntos... no Porto, em Bombarda?

João: Na verdade, não. Conhecemo-nos enquanto estudávamos — eu em Economia e a Sol em Engenharia — e os nossos planos passavam por seguir carreira nessas áreas. Cozinhar juntos, muito menos ter um restaurante no Porto, não fazia parte dos nossos planos naquele momento.

P: O reencontro no México mudou o rumo das vossas vidas. O que alterou quando decidiram construir aí uma vida conjunta?

João: Foi no México que tudo começou a ganhar forma. A Sol mudou de cidade para estar comigo e tirou um curso de cozinha mexicana numa escola muito conceituada. Foi aí que começou a desenvolver um enorme gosto pela cozinha — e que começámos a falar, pela primeira vez, da possibilidade de um dia termos um restaurante mexicano em Portugal.

P: Após quatro anos no México, partiram numa viagem de 18 meses pela América Latina. Quais foram os momentos mais marcantes dessa experiência?

João: É difícil escolher. Passámos por 17 países e praticamente todos os dias acontecia algo marcante. Mas o que mais nos ficou foram as pessoas — como uma família em Quito que nos acolheu durante um mês sem pedir nada em troca.

Sol: Também houve momentos difíceis — perdemos os travões mais do que uma vez, enfrentámos calor extremo, frio, avarias constantes. Mas tudo isso nos ensinou muito.

João: Vivíamos com o essencial — às vezes com apenas 20 litros de água para tudo. Essa simplicidade fez-nos perceber que é preciso muito pouco para ser feliz.

P: De que forma essa experiência contribuiu para a ideia de abrir um restaurante?

João: Durante a viagem ficámos em casa de vários chefs na Colômbia, Argentina e Brasil. Isso foi muito importante. Conhecíamos a cozinha mexicana, mas não tínhamos experiência de restaurante. Foi aí que começámos a perceber melhor esse mundo.


Das viagens ao Frida em Bombarda

P: Quais foram os ingredientes que definiram o conceito do restaurante?
João: Muitos dos nossos pratos têm história — alguns são pré-hispânicos, outros estão ligados à história do México. E sentimos que faz parte do nosso papel explicar isso.

Sol: Queremos que as pessoas sintam que estão a viajar, não apenas a comer. Que, por momentos, estejam no México.

“Quando vimos o espaço, em Bombarda, sentimos imediatamente que era o local certo para o restaurante Frida. A ligação à arte foi determinante.”

João: A comida, na cultura mexicana, está presente em todos os momentos da vida. É algo profundamente identitário — e isso reflete-se no que fazemos.

P: O que vos levou a escolher Bombarda para abrir o Frida?

João: Quando chegámos ao Porto, Bombarda foi uma das primeiras zonas onde procurámos. Já tínhamos o nome “Frida” e o bairro encaixava perfeitamente naquilo que imaginávamos.

Quando vimos o espaço, sentimos imediatamente que era o local certo. A ligação à arte foi determinante.

P: Como sentem que Bombarda dialoga com o espírito do restaurante?

João: Exigimos que cada prato seja uma obra de arte — mesmo sendo efémera. E essa dimensão artística liga-se muito bem com o bairro.

Ao fim de mais de 10 anos, criou-se uma relação natural: quem visita o Frida reconhece o Bairro das Artes, e quem percorre o bairro sabe que o Frida faz parte dele.

P: De que forma o bairro influencia a relação com os vossos clientes?

João: Inicialmente pensávamos que o nosso público seria sobretudo português, mas hoje recebemos muitas pessoas de fora — Holanda, Estados Unidos, França, Inglaterra…

Sol: Criam-se relações muito especiais. Há clientes que deixam desenhos, peças, memórias. Alguns tornam-se amigos.

João: E recebemos cada vez mais mexicanos — o que é muito importante para nós. Conseguir surpreendê-los, com pratos autênticos, é um grande reconhecimento.

Um negócio com identidade mexicana

P: Que desafios enfrentaram ao abrir um restaurante tão ligado à cultura mexicana em Portugal?

Sol: No início, não havia fornecedores para muitos ingredientes — nem em Portugal, nem facilmente na Europa.

João: E formar equipa também não foi fácil. Mesmo um excelente chef português não conhece a cozinha mexicana, por isso é preciso abertura para aprender.

P: O que pretendem transmitir através dos vossos pratos?

Sol: O orgulho e a paixão pela cultura mexicana. Cada prato tem identidade, história e emoção.

João: Queremos mostrar as várias dimensões da cozinha mexicana — da comida de rua à comida de família, dos pratos históricos aos contemporâneos. E que as pessoas sintam vontade de voltar.

P: Como constroem o ambiente familiar dentro do restaurante?

João: Somos exigentes, mas procuramos criar uma relação de confiança com a equipa.
Sol: Ouvimos ideias, envolvemos todos. Queremos que se sintam parte da casa.

P: O que representa Frida Kahlo para o vosso projeto?

João: O nome surgiu da nossa viagem — da Kombi Amália-Frida. Representa a ligação entre Portugal e o México. Frida Kahlo é uma figura icónica da cultura mexicana, e fazia todo o sentido para o restaurante.

Crescer sem perder identidade

P: Como mantêm vivo o espírito de descoberta e autenticidade?

João: Não é fácil — há limitações de ingredientes e custos. Mas vamos adaptando a carta, criando novos pratos e explorando possibilidades.


P: Que futuro imaginam para o Frida?

João: Queremos manter o que temos. Crescer, às vezes, pode significar perder identidade — e isso não queremos.

O foco é continuar com qualidade, autenticidade e dedicação.

No Frida, Sol e João continuam a viajar — não pelas estradas, mas pelos sabores que colocam em cada prato. Uma história que começou longe, mas que encontrou em Bombarda o lugar para continuar a ser escrita todos os dias — sempre que alguém se senta à mesa.

Contactos

Morada: Rua Adolfo Casais Monteiro, 135, Porto
Horário: Almoço: 12h30 – 15h00 | Jantar: 19h00 – 00h00
Site: Frida – Bienvenidos a su casa
Telefone: 22 606 22 86
Email: info@cocinamestiza.pt

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