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Sol e João: o México que encontrou casa em Bombarda
No Frida, não se vai apenas jantar. Entra-se numa casa onde a comida é memória, celebração e identidade. Um lugar onde a tradição mexicana é vivida com rigor, mas também com emoção — e onde Bombarda surge como o cenário natural para esta narrativa.
“Há um compromisso em fazer com que cada prato tenha uma beleza própria e seja, em si mesmo, uma criação artística.”
Do primeiro encontro à construção de uma vida em comum
P: A vossa primeira ligação aconteceu enquanto estudantes Erasmus na Polónia. Quando se conheceram imaginaram que algum dia viriam a cozinhar juntos... no Porto, em Bombarda?
João: Na verdade, não. Conhecemo-nos enquanto estudávamos — eu em Economia e a Sol em Engenharia — e os nossos planos passavam por seguir carreira nessas áreas. Cozinhar juntos, muito menos ter um restaurante no Porto, não fazia parte dos nossos planos naquele momento.
P: O reencontro no México mudou o rumo das vossas vidas. O que alterou quando decidiram construir aí uma vida conjunta?
João: Foi no México que tudo começou a ganhar forma. A Sol mudou de cidade para estar comigo e tirou um curso de cozinha mexicana numa escola muito conceituada. Foi aí que começou a desenvolver um enorme gosto pela cozinha — e que começámos a falar, pela primeira vez, da possibilidade de um dia termos um restaurante mexicano em Portugal.
P: Após quatro anos no México, partiram numa viagem de 18 meses pela América Latina. Quais foram os momentos mais marcantes dessa experiência?
João: É difícil escolher. Passámos por 17 países e praticamente todos os dias acontecia algo marcante. Mas o que mais nos ficou foram as pessoas — como uma família em Quito que nos acolheu durante um mês sem pedir nada em troca.
Sol: Também houve momentos difíceis — perdemos os travões mais do que uma vez, enfrentámos calor extremo, frio, avarias constantes. Mas tudo isso nos ensinou muito.
João: Vivíamos com o essencial — às vezes com apenas 20 litros de água para tudo. Essa simplicidade fez-nos perceber que é preciso muito pouco para ser feliz.
P: De que forma essa experiência contribuiu para a ideia de abrir um restaurante?
João: Durante a viagem ficámos em casa de vários chefs na Colômbia, Argentina e Brasil. Isso foi muito importante. Conhecíamos a cozinha mexicana, mas não tínhamos experiência de restaurante. Foi aí que começámos a perceber melhor esse mundo.
Das viagens ao Frida em Bombarda
P: Quais foram os ingredientes que definiram o conceito do restaurante? João: Muitos dos nossos pratos têm história — alguns são pré-hispânicos, outros estão ligados à história do México. E sentimos que faz parte do nosso papel explicar isso.
Sol: Queremos que as pessoas sintam que estão a viajar, não apenas a comer. Que, por momentos, estejam no México.
“Quando vimos o espaço, em Bombarda, sentimos imediatamente que era o local certo para o restaurante Frida. A ligação à arte foi determinante.”
João: A comida, na cultura mexicana, está presente em todos os momentos da vida. É algo profundamente identitário — e isso reflete-se no que fazemos.
P: O que vos levou a escolher Bombarda para abrir o Frida?
João: Quando chegámos ao Porto, Bombarda foi uma das primeiras zonas onde procurámos. Já tínhamos o nome “Frida” e o bairro encaixava perfeitamente naquilo que imaginávamos.
Quando vimos o espaço, sentimos imediatamente que era o local certo. A ligação à arte foi determinante.
P: Como sentem que Bombarda dialoga com o espírito do restaurante?
João: Exigimos que cada prato seja uma obra de arte — mesmo sendo efémera. E essa dimensão artística liga-se muito bem com o bairro.
Ao fim de mais de 10 anos, criou-se uma relação natural: quem visita o Frida reconhece o Bairro das Artes, e quem percorre o bairro sabe que o Frida faz parte dele.
P: De que forma o bairro influencia a relação com os vossos clientes?
João: Inicialmente pensávamos que o nosso público seria sobretudo português, mas hoje recebemos muitas pessoas de fora — Holanda, Estados Unidos, França, Inglaterra…
Sol: Criam-se relações muito especiais. Há clientes que deixam desenhos, peças, memórias. Alguns tornam-se amigos.
João: E recebemos cada vez mais mexicanos — o que é muito importante para nós. Conseguir surpreendê-los, com pratos autênticos, é um grande reconhecimento.
Um negócio com identidade mexicana
P: Que desafios enfrentaram ao abrir um restaurante tão ligado à cultura mexicana em Portugal?
Sol: No início, não havia fornecedores para muitos ingredientes — nem em Portugal, nem facilmente na Europa.
João: E formar equipa também não foi fácil. Mesmo um excelente chef português não conhece a cozinha mexicana, por isso é preciso abertura para aprender.
P: O que pretendem transmitir através dos vossos pratos?
Sol: O orgulho e a paixão pela cultura mexicana. Cada prato tem identidade, história e emoção.
João: Queremos mostrar as várias dimensões da cozinha mexicana — da comida de rua à comida de família, dos pratos históricos aos contemporâneos. E que as pessoas sintam vontade de voltar.
P: Como constroem o ambiente familiar dentro do restaurante?
João: Somos exigentes, mas procuramos criar uma relação de confiança com a equipa. Sol: Ouvimos ideias, envolvemos todos. Queremos que se sintam parte da casa.
P: O que representa Frida Kahlo para o vosso projeto?
João: O nome surgiu da nossa viagem — da Kombi Amália-Frida. Representa a ligação entre Portugal e o México. Frida Kahlo é uma figura icónica da cultura mexicana, e fazia todo o sentido para o restaurante.
Crescer sem perder identidade
P: Como mantêm vivo o espírito de descoberta e autenticidade?
João: Não é fácil — há limitações de ingredientes e custos. Mas vamos adaptando a carta, criando novos pratos e explorando possibilidades.
P: Que futuro imaginam para o Frida?
João: Queremos manter o que temos. Crescer, às vezes, pode significar perder identidade — e isso não queremos.
O foco é continuar com qualidade, autenticidade e dedicação.
No Frida, Sol e João continuam a viajar — não pelas estradas, mas pelos sabores que colocam em cada prato. Uma história que começou longe, mas que encontrou em Bombarda o lugar para continuar a ser escrita todos os dias — sempre que alguém se senta à mesa.
Contactos
Morada: Rua Adolfo Casais Monteiro, 135, Porto Horário: Almoço: 12h30 – 15h00 | Jantar: 19h00 – 00h00 Site: Frida – Bienvenidos a su casa Telefone: 22 606 22 86 Email: info@cocinamestiza.pt
HISTÓRIAS
DO QUARTEIRÃO
Conhece as histórias que enchem o Quarteirão Bombarda
Com formação em Engenharia e Arquitetura Paisagista, José Pedro encontrou na arte floral uma extensão natural de um percurso há muito ligado à paisagem e à botânica.
Entre referências orientais, modernismo, tropicalismo e uma relação próxima com o território, constrói uma linguagem própria onde emoção, espontaneidade e pragmatismo convivem - sempre com espaço para a surpresa.
“Procuro novas formas de expressar a beleza e o mistério das plantas.” - Azuma Makoto
P: Como começou o teu percurso criativo e o que te levou a trabalhar com flores e decoração?
R: Acho que tudo parte de um mero acaso e de muitas tentativas e erros. No âmbito da minha atividade como paisagista e agricultor, os clientes começaram a pedir alguns trabalhos de arte floral. Aquilo que inicialmente era um complemento acabou por se tornar algo mais sério.
Depois veio o casamento da minha irmã, onde tive liberdade total para criar algo diferente: um bouquet feito a partir de madeiras tratadas pelo sol, frutos verdes e flores outonais.
P: Tens alguma formação ou experiência que tenha marcado a tua prática e o teu olhar sobre o design floral?
R: A minha formação base em Engenharia e Arquitetura Paisagista foi fundamental para criar uma estética aliada à emoção e aos produtos da época, com uma pitada de pragmatismo e racionalidade.
O resto aprimora-se com muito trabalho e prática. Por vezes, trabalhar sob pressão também ajuda bastante — torna-nos resilientes e focados.
P: Quais são as tuas principais fontes de inspiração — natureza, arte, moda, arquitetura?
R: Como referi anteriormente, há as influências do Oriente, o fascínio pela cultura árabe, o mar e a paisagem da Ria de Aveiro.
Depois há a arquitetura, os movimentos modernistas e o tropicalismo, onde encontro um exotismo essencial para o meu trabalho. Roberto Burle Marx, Luís Barragán e o nosso Gonçalo Ribeiro Telles são algumas das minhas referências — pilares na criação de uma estética tropical, autóctone e simplista.
“Menos é mais” é o meu novo mantra diário.
P: Há alguma técnica, linguagem ou tendência que estejas particularmente entusiasmado em explorar nos próximos tempos?
R: Para além do minimalismo japonês, encontro uma grande praticidade nos nórdicos — sou fã dos estilistas belgas e holandeses — e fascina-me a arte criada pelos movimentos modernistas alemães.
E depois há a exuberância da América Latina. Como não amar as cores do México, os cheiros da culinária venezuelana ou a flora amazónica?
Os antípodas são a nova tendência desta década…
P: O que significa para ti o bairro de Miguel Bombarda? Lembras-te da primeira vez que o visitaste?
R: Sou frequentador de Bombarda desde 1995. São 30 anos a conviver e a descobrir um quarteirão vibrante e cheio de histórias hilariantes.
Para mim, o sucesso de Bombarda assenta em três pilares fundamentais.
Primeiro, Bombarda é feminina. As mulheres são o coração do bairro. São elas que levam isto para a frente; a sua determinação e força de vontade são fundamentais para que este projeto cresça e dê frutos.
Fala-se muito de empoderamento feminino, mas em Bombarda sempre houve e sempre haverá “pelo na venta” no feminino.
“Penso que Bombarda é o cavalo de Troia da cidade do Porto.”
Segundo, Bombarda é como um restaurante Michelin de três estrelas onde se fazem omeletes - as mais deliciosas e delicadas - sem ovos. Aqui, tudo se faz com muito trabalho e dedicação, sem grandes apoios, mas com a ajuda de todos.
É um bairro muito unido e ninguém é esquecido.
E, por fim, penso que Bombarda é o cavalo de Troia da cidade do Porto. Bombarda existe para provocar. Em Lisboa, temos um Bombarda como hospital psiquiátrico; no Porto, temos um conjunto de “maluquinhos” que fazem e acontecem na cidade. Sempre tive a ideia de que a elite cultural lisboeta invejou e almejou ter um Bombarda no Porto. Não é por nada, mas quando temos clientes — bem-queridos e fantásticos — de Lisboa no nosso espaço, perguntam sempre porque não há uma loja destas na capital.
Portefólio
A prática do Violetas Creative Studio parte da botânica para criar composições onde flores, folhagens, frutos, texturas e outros elementos naturais se transformam em matéria de criação.
Entre design floral, decoração e eventos, cada projeto procura estabelecer uma relação próxima com o lugar, o momento e as pessoas, privilegiando a sazonalidade, a sensibilidade e a singularidade dos materiais.
Decoração de Casamentos e Eventos Sociais Arranjos florais e styling para casamentos e eventos sociais, incluindo decoração, arte floral, desenho e ilustração.
Decoração Floral com peças de cerâmica Composição floral e peça decorativa — Violetas Creative Studio. (Decoração para espaços interiores, com flores secas e cerâmica artística.)
Luminárias Artesanais Luminária artesanal criada no Violetas Creative Studio. (Peça desenvolvida à mão, com foco em textura, luz e ambiente.)
Arranjos Florais Personalizados Bouquets e arranjos artesanais criados pelo Violetas Creative Studio. (Composições florais feitas à mão, adaptadas ao estilo e ocasião de cada cliente.)
Como colaborar
O Violetas Creative Studio é um espaço dedicado à arte, à botânica, às sensações e aos afetos.
Atualmente, desenvolve projetos completos para eventos sociais e casamentos, abrangendo decoração, arte floral, desenho e ilustração, com propostas concebidas de forma personalizada para cada contexto.
Para conhecer o trabalho do Violetas Creative Studio, propor uma colaboração ou solicitar um projeto personalizado, basta entrar em contacto diretamente com o atelier.
In Bombarda, creativity is not confined to galleries or shop windows: it also happens in the ateliers and workshops that are part of the neighbourhood’s everyday life.
From metalwork and ceramics to furniture and designer objects, there are spaces where creation, production and presentation exist side by side. Places where you can meet the people behind the work, learn more about the materials and, sometimes, experience the creative process for yourself.
From the street to the studio, we visit five spaces that reveal a more intimate and handcrafted side of Bombarda.
Jewellery Experience
At CCBombarda, Jewellery Experience brings the world of jewellery closer to everyone who walks through its door. Created by designers Diogo Dalloz and Luma Boêta, it operates as both a shop and an atelier, presenting original pieces and bespoke projects. Here, jewellery can also become an experience.
The space offers different formats that invite visitors to discover the techniques and processes behind the craft, including jewellery-making experiences and workshops dedicated to creating wedding rings.
It is an opportunity to understand the work behind a piece — and, in some cases, to take part in creating it.
On Rua do Rosário, Tobe Atelier is Benedetta Grasso’s creative world, where jewellery and ceramics come together. Each piece is designed and handmade in Porto, celebrating the individuality of the materials and the subtle differences that make every object unique.
The atelier is both a place of work and discovery. Alongside its jewellery and ceramic collections, the project develops unique and bespoke pieces and hosts workshops where participants can experiment with both practices. Here, the handmade process is not hidden away: it is an essential part of each piece’s identity.
On Rua Adolfo Casais Monteiro, Ó! Cerâmica brings three dimensions together in one place: gallery, studio and shop. This combination naturally connects the exhibition space with the place where ceramics are imagined and made.
More than a place to find finished pieces, Ó! Cerâmica offers a closer look at a practice in which material, experimentation and creation are all part of the same journey.
It is a space that reveals Bombarda’s more hands-on, author-driven side.
At Alma Nova, furniture and objects for the home are given new stories. The project creates handcrafted furniture and home décor in Porto, focusing on individual pieces and an approach that values creativity and transformation.
Alongside its own creations, Alma Nova sources personalised pieces and gives existing furniture a new lease of life through creative interventions.
Its practical workshops add a participatory dimension to the project, inviting others to experience the pleasure of making things with their own hands.
Founded by Portuguese jeweller Ana Pina, Tincal lab is both a workshop and a gallery dedicated to contemporary jewellery. Based at CCBombarda since 2018, it brings creation, experimentation, exhibition and contact with the public together in a single space.
Under the motto curating and experimenting in contemporary jewelry, the project presents solo and group exhibitions, collaborations and workshops with guest jewellers, showcasing work by Portuguese and international artists.
More than a jewellery shop, it is a place to discover contemporary jewellery as a field of creation and experimentation.
In Bombarda, the distance between the person who creates a piece and the person who discovers it can be remarkably small.
These five spaces reveal a neighbourhood where ateliers, workshops, shops and galleries coexist, and where creative processes become part of the visitor experience. From ceramics and jewellery to furniture and designer objects, there are stories, techniques and materials to discover beyond the shop windows.
Discover Bombarda and what happens on the other side of the shop window, through the hands of the people who create here.
O que pode nascer do encontro entre uma peça com quase três séculos de história e a criação contemporânea de Bombarda?
É a partir desta aproximação entre tempos, linguagens e formas de olhar que se constrói o Afinidades. Em cada edição, uma peça da coleção do Museu Nacional Soares dos Reis é escolhida como ponto de partida para desafiar artistas ligados ao Quarteirão Bombarda a desenvolver novas interpretações, estabelecendo relações entre património, território e criação contemporânea. Depois de duas edições dedicadas à joalharia e à cerâmica contemporâneas, em 2024 e 2025, o projeto regressa em 2026 para explorar um novo território artístico: as práticas gráficas contemporâneas.
A Edição de 2026 - Práticas Gráficas Contemporâneas
Com curadoria de Júlio Dolbeth, ilustrador, investigador e professor da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, esta terceira edição desafiou artistas com prática ou representação no território de Bombarda a criar obras originais a partir de um objeto da coleção do Museu Nacional Soares dos Reis. O projeto conta ainda com design expositivo de Sílvia Pinto Costa e com a produção de Marina Costa e Vera Gonçalves, numa equipa constituída por elementos das duas instituições promotoras.
O ponto de partida foi uma Caneca Inglesa produzida na Real Fábrica de Vidros de Coina entre 1719 e 1747. Em vidro incolor transparente e cuidadosamente lapidado, a peça testemunha o desenvolvimento técnico da produção vidreira portuguesa no século XVIII e a circulação de conhecimentos e influências no contexto europeu.
A transparência, o brilho, o volume e a história deste objeto utilitário deram origem a diferentes possibilidades de leitura. Através do desenho, da ilustração, da colagem, da impressão e de práticas mistas, os artistas foram convidados a traduzir a matéria em imagem e a estabelecer novas relações entre objeto, memória e narrativa.
A edição de 2026 começou a 28 de março, com uma sessão pública no Museu Nacional Soares dos Reis. O encontro apresentou o programa, a peça de inspiração, a curadoria e o funcionamento da chamada aberta, reunindo representantes do Museu, da Associação Quarteirão Criativo e da comunidade artística.
A apresentação da Caneca Inglesa por Paula Oliveira, gestora das coleções de Mobiliário, Vidro e Gravura do Museu, permitiu conhecer o contexto histórico, material e museológico da peça. A sessão revelou também como um objeto aparentemente simples pode guardar múltiplas histórias sobre produção, circulação, uso e transformação.
O programa prolongou-se para além da chamada aberta. Em maio, o Museu recebeu o workshop “Laminado Gráfico”, orientado por Júlio Dolbeth e Marta Belkot. A partir de embalagens de Tetrapak reutilizadas como matrizes de impressão, os participantes experimentaram princípios da calcografia e novas formas de transpor o volume e a transparência do vidro para a superfície do papel.
Estes diferentes momentos fizeram do Afinidades não apenas uma exposição, mas um processo de encontro, aprendizagem e criação partilhada entre artistas, instituições e públicos.
Quarenta e nove interpretações de um mesmo objeto
O resultado deste percurso pode agora ser conhecido na exposição “Afinidades 2026 — Práticas Gráficas Contemporâneas”, inaugurada a 25 de julho na Sala das Pedras do Museu Nacional Soares dos Reis.
A exposição reúne 49 obras de artistas ligados ao Quarteirão Bombarda. Partindo da mesma peça, cada participante desenvolveu uma interpretação própria, demonstrando a diversidade de linguagens, técnicas e perspetivas que caracteriza a criação contemporânea do território.
O conjunto transforma a Caneca Inglesa num ponto de partida para múltiplas narrativas. Entre a permanência do vidro e a fragilidade do papel, entre a memória histórica e o olhar do presente, as obras mostram como o património pode permanecer vivo quando é interrogado, reinterpretado e colocado em relação com novas práticas artísticas.
Até 13 de setembro, os visitantes podem participar presencialmente na votação que, em conjunto com a avaliação do júri, contribuirá para a escolha da obra vencedora. A exposição permanece patente até 11 de outubro de 2026.
O Afinidades afirma-se, assim, como uma plataforma de ligação entre o Museu Nacional Soares dos Reis e o ecossistema criativo de Bombarda. Um projeto que aproxima património, território e criação contemporânea, abrindo novas possibilidades de descoberta tanto para quem visita o Museu como para quem vive, trabalha e cria no quarteirão.
Afinidades 2026 — Práticas Gráficas Contemporâneas Local: Museu Nacional Soares dos Reis Agenda:
Exposição até 11 de outubro de 2026
Votação do público até 13 de setembro de 2026
Fotografias no artigo: Associação Quarteirão Criativo, por João Octávio Peixoto
Esta edição do Afinidades é promovida pelo Museu Nacional Soares dos Reis em parceria com a Associação Quarteirão Criativo, com o mecenato do Super Bock Group, o patrocínio da DORF e o apoio do Círculo Dr. José de Figueiredo — Amigos do Museu Nacional Soares dos Reis.
Com formação em Artes Plásticas e um percurso que se estende pela fotografia, design, cerâmica, curadoria e ensino, Sílvia construiu uma prática multidisciplinar onde diferentes áreas se alimentam mutuamente.
Na SCAR-ID, esse percurso traduz-se numa curadoria assente na qualidade, na sustentabilidade e na valorização de criadores independentes.
"A ética não se aprende, vem de base — e a sustentabilidade é uma obrigação de um posicionamento em sociedade."
P: Como começou o teu percurso criativo? Como chegaste aos dias de hoje? Que influência tiveram as Artes Plásticas no teu percurso?
R: O curso de Artes Plásticas, na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, deu-me uma base muito abrangente, que me permitiu trabalhar em diferentes áreas ao longo do tempo. Passei pela fotografia, pela cerâmica, pelo design, pela curadoria e pelo ensino, e sinto que foi essa formação que uniu todas as experiências profissionais que fui acumulando.
Curiosamente, nunca mais pintei depois de terminar o curso. Talvez um dia volte.
O meu percurso foi acontecendo de forma muito natural, sem um plano definido. Cada oportunidade abriu caminho para a seguinte — da fotografia ao ensino, da História da Arte à coordenação do curso de Design do IAI, e mais recentemente à cerâmica, onde reencontrei o prazer de trabalhar diretamente com a matéria.
P: Tens alguma formação ou experiência que tenha influenciado a tua visão sobre a relação entre design, ética e sustentabilidade?
R: A formação em Artes Plásticas foi determinante para desenvolver uma visão transversal das disciplinas criativas. No caso da SCAR-ID, muito do que aprendemos aconteceu ao longo destes doze anos de trabalho, enfrentando desafios e encontrando respostas de forma criativa.
A ética não se aprende, vem de base, e a sustentabilidade é uma consequência natural dessa forma de estar. Ao introduzirmos novos produtos num mercado já saturado, procuramos fazê-lo com sentido de missão, incentivando um consumo mais consciente: comprar menos, mas melhor.
Para nós, sustentabilidade significa sobretudo proximidade, responsabilidade e cuidado.
P: Como descreves o processo curatorial da SCAR-ID? Qual a importância de existir um espaço físico?
R: A curadoria acontece de forma muito orgânica. Estou constantemente atenta ao que acontece nas áreas criativas e, quando surge a vontade de integrar uma nova marca, organizar uma exposição ou promover uma conversa, tudo acontece de forma bastante natural.
O espaço físico é absolutamente essencial. Trabalhamos com objetos e com pessoas, e a loja-galeria é o lugar onde essas duas dimensões se encontram.
Acredito profundamente na importância de uma cidade viva, feita de lojas, galerias, cafés, ateliers, floristas e espaços culturais que alimentam a vida urbana. Sinto que a SCAR-ID faz parte desse diálogo e desse ecossistema. Manter uma loja-galeria física é, para mim, quase um manifesto a favor da cidade e da convivência entre pessoas.
Não faria sentido existir SCAR-ID sem esse espaço.
P: Que desafios encontras atualmente no setor do design independente e sustentável em Portugal?
R: O principal desafio continua a ser o mesmo: a reduzida capacidade de compra do público nacional. Os produtos que apresentamos têm um preço justo para quem os cria, mas nem sempre são compatíveis com a realidade económica portuguesa.
Por outro lado, as pequenas marcas enfrentam também enormes desafios ao nível da produção. Ainda existe pouca abertura da indústria para colaborar com designers e projetos independentes.
P: O que representa para ti o bairro Miguel Bombarda?
R: Estamos em Bombarda há mais de doze anos. Ao longo deste tempo o bairro transformou-se. Se antes era marcado sobretudo pelas galerias de arte, hoje integra também lojas, ateliers, cafés, floristas e muitos outros projetos que lhe dão identidade. É essa diversidade que faz de Bombarda um lugar especial para trabalhar.
Existe um verdadeiro sentido de comunidade, de entreajuda e de proximidade. Conhecemo-nos, colaboramos e sabemos que podemos contar uns com os outros sempre que é preciso.
Portefólio
A prática da SCAR-ID cruza curadoria, design de autor e criação artística, reunindo marcas independentes, produção responsável e projetos desenvolvidos em diferentes áreas, da cerâmica ao design contemporâneo.
SCAR-I10 — Open Call / Exposição (2023) Projeto comemorativo dos 10 anos da SCAR-ID, reunindo mais de 50 participantes e propostas transdisciplinares apresentadas em conversas e exposição final.
Amálgama Líquida — jarra em grés com vidrado branco Peça desenvolvida pela artista no âmbito da Open Call do 10.º aniversário da SCAR-ID; integra a linha ATER.
Casaco — acrílico preto sobre branco Peça da coleção ATER x LIV, desenvolvida em coautoria com a marca LIV.
Como colaborar
A SCAR-ID dedica-se à curadoria e divulgação de design de autor produzido por marcas e criadores independentes, reunindo moda, acessórios, cerâmica e objetos de design produzidos de forma responsável.
Para além da loja-galeria, desenvolve projetos de consultoria criativa, curadoria, parcerias e acompanhamento de marcas independentes.
Se pretende conhecer as marcas representadas, propor uma colaboração ou visitar o espaço, a equipa da SCAR-ID está sempre disponível para receber novos projetos e novas ideias.
Em 2021 fundou a Rádio YéYé, uma plataforma digital que define como "um reflexo dos estilos de vida que compõem o tecido urbano contemporâneo".
Assente no espírito comunitário, na partilha entre diferentes gerações de ouvintes e na liberdade editorial, a YéYé afirmou-se rapidamente como um espaço de militância musical, colaboração e descoberta, reunindo dezenas de autores, DJs e criadores que contribuem para uma rádio feita de pessoas, e não de algoritmos.
“Uma rádio feita de pessoas, e não de algoritmos."
Em 2025, o projeto instalou o seu estúdio no Quarteirão Miguel Bombarda, reforçando a ligação ao ecossistema cultural independente do Porto. Um bairro cuja vitalidade artística reflete o espírito da própria rádio: um projeto coletivo, aberto ao encontro, à experimentação e à descoberta de novas formas de escutar o mundo.
P: Como começou o teu percurso na música?
R: Há 44 anos, enquanto DJ.
P: Há algum projeto ou colaboração que consideres um turning point na tua carreira?
R: Ter sido A&R da editora Nortesul durante 23 anos (1994–2017).
P: Que desafios enfrentas atualmente na tua área?
R: Conseguir rentabilizar e financiar uma atividade dirigida a minorias.
P: Que conselho darias a alguém que queira criar uma rádio?
R: Que esqueça! :)
P: Se tivesses de escolher três músicas para servir de banda sonora a Bombarda, quais seriam?
R: Sven Wunder — Liquid Mountains; Pedro Mizutani + Skinshape — Canal; Leroy Conroy — Enter
Portefólio
A Rádio YéYé desenvolve uma programação dedicada à música independente e à cultura contemporânea, promovendo novos artistas, concertos, sessões ao vivo e conteúdos editoriais produzidos a partir do seu estúdio em Bombarda.
DJ set (44 anos de atividade) - Nas últimas quatro décadas, Pedro Tenreiro tem desenvolvido uma prática contínua como DJ, marcada pela pesquisa, pela descoberta musical e pela ligação profunda às culturas urbanas.
Rádio YéYé – plataforma digital de curadoria musical - Criador da Rádio YéYé, plataforma dedicada a refletir os estilos de vida do tecido urbano contemporâneo e a promover consumos musicais alternativos através de uma comunidade ativa de autores.
A&R da editora Nortesul (1994–2017) - Durante 23 anos, desempenhou funções de A&R na Nortesul, contribuindo para a descoberta, acompanhamento e desenvolvimento artístico de projetos musicais dentro da editora.
Como colaborar
Atualmente, a Rádio YéYé encontra-se focada no desenvolvimento de concertos filmados e gravados no seu estúdio. Embora não esteja a aceitar novas colaborações editoriais, o projeto está aberto a patrocinadores e parceiros que pretendam apoiar novos formatos de música ao vivo e conteúdos culturais independentes.
Bombarda é reconhecida como um dos principais polos criativos do Porto, onde arte, design, comércio independente e cultura convivem lado a lado. Mas há outro elemento que ajuda a definir a identidade do bairro: a música.
Mais do que um lugar para assistir a concertos, Bombarda é um território de descoberta. Aqui encontramos espaços dedicados ao vinil, rádios independentes, projetos culturais e comunidades que fazem da música uma forma de encontro, partilha e experimentação.
Se gosta de explorar novos sons, conhecer artistas ou simplesmente perder-se entre discos e conversas sobre música, estes cinco espaços merecem uma visita.
Matéria Prima
Com mais de três décadas de história, a Matéria Prima é uma referência para quem procura descobrir música para lá dos circuitos mais comerciais.
Especializada em discos, livros, revistas e publicações independentes, reúne um catálogo cuidadosamente selecionado e uma forte ligação às editoras e artistas independentes.
A programação do espaço inclui regularmente apresentações, lançamentos e iniciativas dedicadas à cultura musical, fazendo da Matéria Prima um dos locais incontornáveis para quem gosta de explorar novas propostas sonoras. Saber mais
Open Box
A Open Box é um espaço cultural onde diferentes disciplinas artísticas se encontram, incluindo a música. A sua programação acolhe concertos intimistas, DJ sets, performances e eventos multidisciplinares que convidam à descoberta de novos artistas e formatos.
Com uma agenda dinâmica e em constante renovação, é um daqueles espaços que vale a pena acompanhar, porque cada visita pode revelar uma experiência diferente e uma nova banda sonora para o bairro. Saber mais
Circus Network
Na Circus Network, a música faz parte da identidade do projeto.
Para além da programação artística e cultural, o espaço integra uma Record Shop especializada em vinil, onde é possível descobrir edições novas e usadas que percorrem universos como house, techno, jazz, soul, hip-hop, eletrónica e música experimental.
Entre lançamentos, encontros informais e uma forte ligação à criação contemporânea, a Circus Network é um espaço onde a música se cruza naturalmente com a arte e a cultura visual. Saber mais
RÁDIO YÉYÉ
A Yé Yé Radio trouxe uma nova dimensão ao bairro ao criar um espaço dedicado à rádio independente e à cultura musical contemporânea.
Através de emissões regulares, programas de autor, DJs convidados e projetos colaborativos, promove artistas emergentes e dá voz a diferentes comunidades criativas.
Mais do que um estúdio de rádio, é um ponto de encontro onde a música é partilhada, discutida e celebrada, contribuindo para a diversidade cultural que caracteriza Bombarda. Saber mais
Mint Mint
Para quem aprecia a experiência de descobrir música em formato físico, a Mint Mint é uma paragem obrigatória.
Especializada em discos de vinil, a loja reúne uma seleção cuidada que atravessa diferentes géneros e épocas, tornando-se um ponto de encontro para colecionadores, DJs e todos os que gostam de explorar novas sonoridades.
Ao longo do ano, o espaço acolhe também sessões de escuta, apresentações e pequenos eventos que reforçam a ligação entre a música e a comunidade criativa de Bombarda. Saber mais
Em Bombarda, a música vive além do palco.
Está nas lojas que preservam a cultura do vinil, nas rádios independentes que revelam novos talentos e nos espaços culturais onde diferentes expressões artísticas se cruzam.
Cada um destes lugares contribui, à sua maneira, para a identidade criativa do bairro e convida a descobrir a música de forma mais próxima e espontânea.
Entre sem destino, deixe-se levar pela curiosidade e descubra o seu próximo disco ou a sua próxima playlist.