O que pode nascer do encontro entre uma peça com quase três séculos de história e a criação contemporânea de Bombarda?
É a partir desta aproximação entre tempos, linguagens e formas de olhar que se constrói o Afinidades. Em cada edição, uma peça da coleção do Museu Nacional Soares dos Reis é escolhida como ponto de partida para desafiar artistas ligados ao Quarteirão Bombarda a desenvolver novas interpretações, estabelecendo relações entre património, território e criação contemporânea. Depois de duas edições dedicadas à joalharia e à cerâmica contemporâneas, em 2024 e 2025, o projeto regressa em 2026 para explorar um novo território artístico: as práticas gráficas contemporâneas.
A Edição de 2026 - Práticas Gráficas Contemporâneas
Com curadoria de Júlio Dolbeth, ilustrador, investigador e professor da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, esta terceira edição desafiou artistas com prática ou representação no território de Bombarda a criar obras originais a partir de um objeto da coleção do Museu Nacional Soares dos Reis. O projeto conta ainda com design expositivo de Sílvia Pinto Costa e com a produção de Marina Costa e Vera Gonçalves, numa equipa constituída por elementos das duas instituições promotoras.
O ponto de partida foi uma Caneca Inglesa produzida na Real Fábrica de Vidros de Coina entre 1719 e 1747. Em vidro incolor transparente e cuidadosamente lapidado, a peça testemunha o desenvolvimento técnico da produção vidreira portuguesa no século XVIII e a circulação de conhecimentos e influências no contexto europeu.
A transparência, o brilho, o volume e a história deste objeto utilitário deram origem a diferentes possibilidades de leitura. Através do desenho, da ilustração, da colagem, da impressão e de práticas mistas, os artistas foram convidados a traduzir a matéria em imagem e a estabelecer novas relações entre objeto, memória e narrativa.
A edição de 2026 começou a 28 de março, com uma sessão pública no Museu Nacional Soares dos Reis. O encontro apresentou o programa, a peça de inspiração, a curadoria e o funcionamento da chamada aberta, reunindo representantes do Museu, da Associação Quarteirão Criativo e da comunidade artística.
A apresentação da Caneca Inglesa por Paula Oliveira, gestora das coleções de Mobiliário, Vidro e Gravura do Museu, permitiu conhecer o contexto histórico, material e museológico da peça. A sessão revelou também como um objeto aparentemente simples pode guardar múltiplas histórias sobre produção, circulação, uso e transformação.
O programa prolongou-se para além da chamada aberta. Em maio, o Museu recebeu o workshop “Laminado Gráfico”, orientado por Júlio Dolbeth e Marta Belkot. A partir de embalagens de Tetrapak reutilizadas como matrizes de impressão, os participantes experimentaram princípios da calcografia e novas formas de transpor o volume e a transparência do vidro para a superfície do papel.
Estes diferentes momentos fizeram do Afinidades não apenas uma exposição, mas um processo de encontro, aprendizagem e criação partilhada entre artistas, instituições e públicos.
Quarenta e nove interpretações de um mesmo objeto
O resultado deste percurso pode agora ser conhecido na exposição “Afinidades 2026 — Práticas Gráficas Contemporâneas”, inaugurada a 25 de julho na Sala das Pedras do Museu Nacional Soares dos Reis.
A exposição reúne 49 obras de artistas ligados ao Quarteirão Bombarda. Partindo da mesma peça, cada participante desenvolveu uma interpretação própria, demonstrando a diversidade de linguagens, técnicas e perspetivas que caracteriza a criação contemporânea do território.
O conjunto transforma a Caneca Inglesa num ponto de partida para múltiplas narrativas. Entre a permanência do vidro e a fragilidade do papel, entre a memória histórica e o olhar do presente, as obras mostram como o património pode permanecer vivo quando é interrogado, reinterpretado e colocado em relação com novas práticas artísticas.
Até 13 de setembro, os visitantes podem participar presencialmente na votação que, em conjunto com a avaliação do júri, contribuirá para a escolha da obra vencedora. A exposição permanece patente até 11 de outubro de 2026.
O Afinidades afirma-se, assim, como uma plataforma de ligação entre o Museu Nacional Soares dos Reis e o ecossistema criativo de Bombarda. Um projeto que aproxima património, território e criação contemporânea, abrindo novas possibilidades de descoberta tanto para quem visita o Museu como para quem vive, trabalha e cria no quarteirão.
Afinidades 2026 — Práticas Gráficas Contemporâneas Local: Museu Nacional Soares dos Reis Agenda:
Exposição até 11 de outubro de 2026
Votação do público até 13 de setembro de 2026
Fotografias no artigo: Associação Quarteirão Criativo, por João Octávio Peixoto
Esta edição do Afinidades é promovida pelo Museu Nacional Soares dos Reis em parceria com a Associação Quarteirão Criativo, com o mecenato do Super Bock Group, o patrocínio da DORF e o apoio do Círculo Dr. José de Figueiredo — Amigos do Museu Nacional Soares dos Reis.
Com formação em Artes Plásticas e um percurso que se estende pela fotografia, design, cerâmica, curadoria e ensino, Sílvia construiu uma prática multidisciplinar onde diferentes áreas se alimentam mutuamente.
Na SCAR-ID, esse percurso traduz-se numa curadoria assente na qualidade, na sustentabilidade e na valorização de criadores independentes.
"A ética não se aprende, vem de base — e a sustentabilidade é uma obrigação de um posicionamento em sociedade."
P: Como começou o teu percurso criativo? Como chegaste aos dias de hoje? Que influência tiveram as Artes Plásticas no teu percurso?
R: O curso de Artes Plásticas, na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, deu-me uma base muito abrangente, que me permitiu trabalhar em diferentes áreas ao longo do tempo. Passei pela fotografia, pela cerâmica, pelo design, pela curadoria e pelo ensino, e sinto que foi essa formação que uniu todas as experiências profissionais que fui acumulando.
Curiosamente, nunca mais pintei depois de terminar o curso. Talvez um dia volte.
O meu percurso foi acontecendo de forma muito natural, sem um plano definido. Cada oportunidade abriu caminho para a seguinte — da fotografia ao ensino, da História da Arte à coordenação do curso de Design do IAI, e mais recentemente à cerâmica, onde reencontrei o prazer de trabalhar diretamente com a matéria.
P: Tens alguma formação ou experiência que tenha influenciado a tua visão sobre a relação entre design, ética e sustentabilidade?
R: A formação em Artes Plásticas foi determinante para desenvolver uma visão transversal das disciplinas criativas. No caso da SCAR-ID, muito do que aprendemos aconteceu ao longo destes doze anos de trabalho, enfrentando desafios e encontrando respostas de forma criativa.
A ética não se aprende, vem de base, e a sustentabilidade é uma consequência natural dessa forma de estar. Ao introduzirmos novos produtos num mercado já saturado, procuramos fazê-lo com sentido de missão, incentivando um consumo mais consciente: comprar menos, mas melhor.
Para nós, sustentabilidade significa sobretudo proximidade, responsabilidade e cuidado.
P: Como descreves o processo curatorial da SCAR-ID? Qual a importância de existir um espaço físico?
R: A curadoria acontece de forma muito orgânica. Estou constantemente atenta ao que acontece nas áreas criativas e, quando surge a vontade de integrar uma nova marca, organizar uma exposição ou promover uma conversa, tudo acontece de forma bastante natural.
O espaço físico é absolutamente essencial. Trabalhamos com objetos e com pessoas, e a loja-galeria é o lugar onde essas duas dimensões se encontram.
Acredito profundamente na importância de uma cidade viva, feita de lojas, galerias, cafés, ateliers, floristas e espaços culturais que alimentam a vida urbana. Sinto que a SCAR-ID faz parte desse diálogo e desse ecossistema. Manter uma loja-galeria física é, para mim, quase um manifesto a favor da cidade e da convivência entre pessoas.
Não faria sentido existir SCAR-ID sem esse espaço.
P: Que desafios encontras atualmente no setor do design independente e sustentável em Portugal?
R: O principal desafio continua a ser o mesmo: a reduzida capacidade de compra do público nacional. Os produtos que apresentamos têm um preço justo para quem os cria, mas nem sempre são compatíveis com a realidade económica portuguesa.
Por outro lado, as pequenas marcas enfrentam também enormes desafios ao nível da produção. Ainda existe pouca abertura da indústria para colaborar com designers e projetos independentes.
P: O que representa para ti o bairro Miguel Bombarda?
R: Estamos em Bombarda há mais de doze anos. Ao longo deste tempo o bairro transformou-se. Se antes era marcado sobretudo pelas galerias de arte, hoje integra também lojas, ateliers, cafés, floristas e muitos outros projetos que lhe dão identidade. É essa diversidade que faz de Bombarda um lugar especial para trabalhar.
Existe um verdadeiro sentido de comunidade, de entreajuda e de proximidade. Conhecemo-nos, colaboramos e sabemos que podemos contar uns com os outros sempre que é preciso.
Portefólio
A prática da SCAR-ID cruza curadoria, design de autor e criação artística, reunindo marcas independentes, produção responsável e projetos desenvolvidos em diferentes áreas, da cerâmica ao design contemporâneo.
SCAR-I10 — Open Call / Exposição (2023) Projeto comemorativo dos 10 anos da SCAR-ID, reunindo mais de 50 participantes e propostas transdisciplinares apresentadas em conversas e exposição final.
Amálgama Líquida — jarra em grés com vidrado branco Peça desenvolvida pela artista no âmbito da Open Call do 10.º aniversário da SCAR-ID; integra a linha ATER.
Casaco — acrílico preto sobre branco Peça da coleção ATER x LIV, desenvolvida em coautoria com a marca LIV.
Como colaborar
A SCAR-ID dedica-se à curadoria e divulgação de design de autor produzido por marcas e criadores independentes, reunindo moda, acessórios, cerâmica e objetos de design produzidos de forma responsável.
Para além da loja-galeria, desenvolve projetos de consultoria criativa, curadoria, parcerias e acompanhamento de marcas independentes.
Se pretende conhecer as marcas representadas, propor uma colaboração ou visitar o espaço, a equipa da SCAR-ID está sempre disponível para receber novos projetos e novas ideias.
Em 2021 fundou a Rádio YéYé, uma plataforma digital que define como "um reflexo dos estilos de vida que compõem o tecido urbano contemporâneo".
Assente no espírito comunitário, na partilha entre diferentes gerações de ouvintes e na liberdade editorial, a YéYé afirmou-se rapidamente como um espaço de militância musical, colaboração e descoberta, reunindo dezenas de autores, DJs e criadores que contribuem para uma rádio feita de pessoas, e não de algoritmos.
“Uma rádio feita de pessoas, e não de algoritmos."
Em 2025, o projeto instalou o seu estúdio no Quarteirão Miguel Bombarda, reforçando a ligação ao ecossistema cultural independente do Porto. Um bairro cuja vitalidade artística reflete o espírito da própria rádio: um projeto coletivo, aberto ao encontro, à experimentação e à descoberta de novas formas de escutar o mundo.
P: Como começou o teu percurso na música?
R: Há 44 anos, enquanto DJ.
P: Há algum projeto ou colaboração que consideres um turning point na tua carreira?
R: Ter sido A&R da editora Nortesul durante 23 anos (1994–2017).
P: Que desafios enfrentas atualmente na tua área?
R: Conseguir rentabilizar e financiar uma atividade dirigida a minorias.
P: Que conselho darias a alguém que queira criar uma rádio?
R: Que esqueça! :)
P: Se tivesses de escolher três músicas para servir de banda sonora a Bombarda, quais seriam?
R: Sven Wunder — Liquid Mountains; Pedro Mizutani + Skinshape — Canal; Leroy Conroy — Enter
Portefólio
A Rádio YéYé desenvolve uma programação dedicada à música independente e à cultura contemporânea, promovendo novos artistas, concertos, sessões ao vivo e conteúdos editoriais produzidos a partir do seu estúdio em Bombarda.
DJ set (44 anos de atividade) - Nas últimas quatro décadas, Pedro Tenreiro tem desenvolvido uma prática contínua como DJ, marcada pela pesquisa, pela descoberta musical e pela ligação profunda às culturas urbanas.
Rádio YéYé – plataforma digital de curadoria musical - Criador da Rádio YéYé, plataforma dedicada a refletir os estilos de vida do tecido urbano contemporâneo e a promover consumos musicais alternativos através de uma comunidade ativa de autores.
A&R da editora Nortesul (1994–2017) - Durante 23 anos, desempenhou funções de A&R na Nortesul, contribuindo para a descoberta, acompanhamento e desenvolvimento artístico de projetos musicais dentro da editora.
Como colaborar
Atualmente, a Rádio YéYé encontra-se focada no desenvolvimento de concertos filmados e gravados no seu estúdio. Embora não esteja a aceitar novas colaborações editoriais, o projeto está aberto a patrocinadores e parceiros que pretendam apoiar novos formatos de música ao vivo e conteúdos culturais independentes.
Bombarda é reconhecida como um dos principais polos criativos do Porto, onde arte, design, comércio independente e cultura convivem lado a lado. Mas há outro elemento que ajuda a definir a identidade do bairro: a música.
Mais do que um lugar para assistir a concertos, Bombarda é um território de descoberta. Aqui encontramos espaços dedicados ao vinil, rádios independentes, projetos culturais e comunidades que fazem da música uma forma de encontro, partilha e experimentação.
Se gosta de explorar novos sons, conhecer artistas ou simplesmente perder-se entre discos e conversas sobre música, estes cinco espaços merecem uma visita.
Matéria Prima
Com mais de três décadas de história, a Matéria Prima é uma referência para quem procura descobrir música para lá dos circuitos mais comerciais.
Especializada em discos, livros, revistas e publicações independentes, reúne um catálogo cuidadosamente selecionado e uma forte ligação às editoras e artistas independentes.
A programação do espaço inclui regularmente apresentações, lançamentos e iniciativas dedicadas à cultura musical, fazendo da Matéria Prima um dos locais incontornáveis para quem gosta de explorar novas propostas sonoras. Saber mais
Open Box
A Open Box é um espaço cultural onde diferentes disciplinas artísticas se encontram, incluindo a música. A sua programação acolhe concertos intimistas, DJ sets, performances e eventos multidisciplinares que convidam à descoberta de novos artistas e formatos.
Com uma agenda dinâmica e em constante renovação, é um daqueles espaços que vale a pena acompanhar, porque cada visita pode revelar uma experiência diferente e uma nova banda sonora para o bairro. Saber mais
Circus Network
Na Circus Network, a música faz parte da identidade do projeto.
Para além da programação artística e cultural, o espaço integra uma Record Shop especializada em vinil, onde é possível descobrir edições novas e usadas que percorrem universos como house, techno, jazz, soul, hip-hop, eletrónica e música experimental.
Entre lançamentos, encontros informais e uma forte ligação à criação contemporânea, a Circus Network é um espaço onde a música se cruza naturalmente com a arte e a cultura visual. Saber mais
RÁDIO YÉYÉ
A Yé Yé Radio trouxe uma nova dimensão ao bairro ao criar um espaço dedicado à rádio independente e à cultura musical contemporânea.
Através de emissões regulares, programas de autor, DJs convidados e projetos colaborativos, promove artistas emergentes e dá voz a diferentes comunidades criativas.
Mais do que um estúdio de rádio, é um ponto de encontro onde a música é partilhada, discutida e celebrada, contribuindo para a diversidade cultural que caracteriza Bombarda. Saber mais
Mint Mint
Para quem aprecia a experiência de descobrir música em formato físico, a Mint Mint é uma paragem obrigatória.
Especializada em discos de vinil, a loja reúne uma seleção cuidada que atravessa diferentes géneros e épocas, tornando-se um ponto de encontro para colecionadores, DJs e todos os que gostam de explorar novas sonoridades.
Ao longo do ano, o espaço acolhe também sessões de escuta, apresentações e pequenos eventos que reforçam a ligação entre a música e a comunidade criativa de Bombarda. Saber mais
Em Bombarda, a música vive além do palco.
Está nas lojas que preservam a cultura do vinil, nas rádios independentes que revelam novos talentos e nos espaços culturais onde diferentes expressões artísticas se cruzam.
Cada um destes lugares contribui, à sua maneira, para a identidade criativa do bairro e convida a descobrir a música de forma mais próxima e espontânea.
Entre sem destino, deixe-se levar pela curiosidade e descubra o seu próximo disco ou a sua próxima playlist.
Entre fotografia, escrita e curadoria, o seu trabalho constrói-se através da observação, da investigação e da criação de relações entre imagens, textos e pessoas. A sua prática procura explorar aquilo que permanece invisível, questionando a forma como percebemos o mundo e construímos memória.
"O denominador comum entre fotografia, escrita e curadoria é o ato de selecionar, cortar e escolher — decidir o que será falado, visto e mostrado ao mundo."
P: Que denominador comum encontras entre a fotografia, a palavra escrita e a curadoria
R: A fotografia, a escrita e a curadoria são formas de expressão que utilizo para lidar com as inquietações do quotidiano. Embora a fotografia possa assumir uma dimensão mais comercial e a escrita uma vertente mais académica, ambas continuam a ser práticas criativas onde encontro espaço para aprofundar pensamento e experimentação. Desde criança, a leitura foi um refúgio e um território de ideias. A fotografia levou-me a organizar visualmente o mundo, seja através de um objeto, seja na composição de uma exposição.
A curadoria surgiu de forma semelhante, através de um convite da CRU Creative Hub, depois de vários anos de colaboração. Ao longo desse percurso percebi que, no fundo, tudo o que faço passa pelo mesmo gesto: editar, compor e estabelecer relações.
O denominador comum entre estas práticas é precisamente esse ato de selecionar, cortar e escolher — decidir aquilo que será falado, visto e mostrado ao mundo.
P: Quais são as tuas principais fontes de inspiração?
R: Inspiram-me autores que exploram a experimentalidade da linguagem e da escrita. Inspiram-me obras que habitam o território do infraordinário, do marginal e do invisível, seja pelos materiais, pelas técnicas ou pelas relações que estabelecem. Inspiram-me também a generosidade das pessoas que me rodeiam, a amizade, e a simplicidade que algumas obras apenas alcançam depois de um longo processo de maturação.
No fundo, encontro inspiração em tudo e em nada, sempre nesse lugar entre o absoluto tédio e a infinita curiosidade.
P: Que novos desafios criativos gostarias de abraçar nos próximos anos?
R: Quero continuar a desenvolver o projeto Cartografia para uma Biografia, iniciado em 2024, expandindo-o através de residências artísticas, investigação e colaborações. Pretendo aprofundar igualmente o trabalho na escrita experimental e na edição de publicações, sob a forma de livros de autor, ensaios ou revistas.
Gostaria também de continuar a colaborar com artistas de diferentes disciplinas e aprofundar o design expositivo na área da curadoria.
Na investigação académica, desejo continuar a explorar a relação entre fotografia e tempo.
P: Que objeto ou ritual não pode faltar no teu dia a dia de trabalho?
R: Não tenho objetos ou rituais fixos, porque nenhum dia é igual ao anterior.
Ainda assim, existe um gesto que antecede quase sempre o trabalho: preparar o espaço. Antes de escrever ou de imaginar uma imagem, sinto necessidade de reorganizar o ambiente.
Depois seguem-se normalmente uma leitura dispersa, uma deambulação e uma chávena de café.
P: O que significa Bombarda para ti?
R: Bombarda representa a ideia viva de comunidade, no seu sentido mais amplo. É um espaço de partilha, encontro e transformação permanente, alimentado pela diversidade dos seus membros e por uma ética de acolhimento, hospitalidade e vitalidade.
Para mim, Bombarda foi sempre um lugar onde projetos e ideias ganharam forma, onde diferentes modos de expressão, de vida e de criação se encontram e dialogam.
Portefólio
A prática artística de Rossana Mendes Fonseca cruza fotografia, escrita, curadoria e investigação, explorando a imagem enquanto território de pensamento, memória e experimentação.
Tradução dos textos originais (em inglês) de Virginia Woolf: Letter to a Young Poet, Street Haunting: A London Adventure, and Craftsmanship para português + Imagens realizadas a partir de levantamentos de emulsão de polaroids a preto e branco. Agosto, 2024.
Texto em papel esquiço, levantamentos de emulsão de polaroids em papel de aguarela, linho pintado a óleo — objectos de uma cartografia biográfica, instalados no Estúdio Aro de 28 de junho a 31 de julho, 2024.
Desenvolvimento artístico do Doutoramento em Arte Contemporânea, no Colégio das Artes da Universidade de Coimbra.
[trans]sombre, série de 4 fotografias, realizadas a partir de uma coreografia com luz de Marta Cunha com máscaras criadas por Carmo Paulino e João Apolinário Mendes, impressas em papel fotográfico, 70x100cm, instaladas na CRU creative hub, de 21 de março a 25 de abril, 2015.
Cartographies of Deviations. Mapping Origins and Narratives, exposição colectiva com obras das artistas Glorija Lizde, Izzy Benigno, Lana Stojićević, Stela Mikulin and Tanja Minarik, resultado da Residência de Curadoria no Culture Hub Croatia [PROSTOR], entre 4 de agosto a 2 de setembro de 2024, exposição patente entre 28 de agosto a 20 de setembro, 2024.
Como colaborar
Rossana Mendes Fonseca desenvolve projetos artísticos, curatoriais e editoriais dedicados à fotografia, à escrita e à cultura visual. Realiza comissões fotográficas, direção artística, projetos editoriais, curadorias, residências, workshops, docência e consultoria nas áreas da imagem e da arte contemporânea.
Está disponível para colaborações artísticas, investigação, programação cultural e projetos interdisciplinares.
Entre exposições, festivais, edições e projetos paralelos como a Circus Records e a Jazzego Records, o percurso de André reflete uma prática profundamente ligada à experimentação e à cultura urbana.
Num território como Bombarda, onde diferentes linguagens criativas se cruzam diariamente, o seu trabalho afirma-se como ponto de encontro entre artistas, públicos e cidade.
“There’s more to life than this.”
P: Além da Circus, sabemos que fazes muito mais como criativo de Bombarda - queres falar um bocadinho sobre o teu percurso e como concilias todas as tuas frentes de trabalho?
R: De uma forma resumida, concilio tudo mal e dormindo pouco. A Circus é, sem dúvida, o projeto principal, logo a seguir à família (que isto de ser pai tem muito que se lhe diga), sendo o que me toma mais tempo.
P: Como descreves o teu processo curatorial e a forma como escolhes os artistas com quem trabalhas?
R: Cada projeto tem uma curadoria específica que advém de um processo de discussão ativa entre vários intervenientes. Briefings específicos requerem artistas adequados para tal. Quando é uma modalidade mais livre, grande parte da curadoria parte de uma premissa muito básica: aquilo que consideramos bom, o que nos atrai e o que nos entusiasma naquele momento.
P: Quais são as tuas principais fontes de inspiração ou referências estéticas?
R: Atualmente, sou largamente inspirado pelo movimento post-graffiti, que traz uma nova vertente de exploração abstrata para o muralismo.
Tenho também estado muito interessado no trabalho do artista venezuelano Carlos Cruz-Diez e nos lookbooks do designer Salehe Bembury. Ainda assim, grande parte da inspiração vem de onde sempre veio: da cultura de sapatilhas e das capas de discos. Não é incomum encontrar referências a Wu-Tang Clan e outros clássicos nas exposições que fazemos.
P: Quais são algumas das músicas que tens ouvido recentemente? E um livro que te tenha marcado?
R: Das músicas que tenho ouvido recentemente destaco:
Gaztween – Firewater ft. B. Ghost, Black Lavender, Minus & MRDolly;
Fiasco – Que Seja
Pedro Ricardo & Damián Botigué – Cerca de Mi
Fleetwood Mac – Landslide
John Coltrane – Favorite Things
Um livro que me marcou: Shoe Dog, de Phil Knight
P: Que espaços de Bombarda recomendarias a quem quer descobrir o bairro criativo?
R: Bicho, Época, Matéria Prima, Ó Cerâmica, Cruzes Canhoto e Decomur.
Portefólio
A prática da Circus Network cruza diferentes formatos — festivais, exposições, edição musical e projetos colaborativos.
Fenda — Festival Internacional de Arte Pública Festival que promove o diálogo entre artistas, comunidades e espaço urbano. Com curadoria da Circus Network, reúne criadores nacionais e internacionais em torno de murais, instalações e projetos colaborativos que transformam a paisagem da cidade.
Dollar Dollar Bills Y’all — Exposição coletiva internacional Exposição que reúne 27 artistas de diferentes países, desafiados a transformar a rara nota de dois dólares em obras de arte. O projeto combina técnicas tradicionais com realidade aumentada, explorando novas formas de expressão visual. Granito I — Jazzego Records (2022) Primeira compilação da Jazzego Records, reunindo músicos e produtores ligados à cena jazz e eletrónica contemporânea, celebrando a experimentação sonora e o espírito colaborativo.
Como colaborar
A Circus Network atua como galeria, loja e agência criativa, desenvolvendo projetos de curadoria, representação artística, edição, produção de eventos e edição musical independente. Está aberta a colaborações, exposições, residências artísticas e propostas criativas.